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segunda-feira, 17 de março de 2014

Rio de Janeiro, ficção e realidade

Pois é, voltemos aos choques... Nem preciso completar, pois são sempre culturais, mesmo quando pensamos que de outra natureza. 

Tive mais um, hoje, há pouco, além dos que já tinha tido desde que acordei.

É aquela sensação de que alguém está pintando a sua casa com uma tinta que encobre a cara real da casa e deixa-a parecendo um filme que você, decididamente, não reconhece. Ou, que de tão poético, faz parecer uma benevolência com aquilo que estamos carecas de conhecer. Mas uma benevolência que leva o leitor para uma posição assim de "vôo de águia", vista superior, em linguagem de desenho e geometria, mas que não se mistura e beira um pedantismo que só pode perceber quem conhece bem o objeto descrito.

Convido os meus dois ou três leitores a dar uma lida num texto de indiscutível valor literário e, depois, a lerem a resposta que dei em forma de comentário lá no blog onde se encontra o texto.

É mais um desabafo, isto, pois a verdade é que há que assumir que os nossos olhos estão inevitavelmente contaminados por nossa história e somos, em certa (ou grande) medida, reféns da vida que vivemos antes e durante as nossas experiências de mergulho em outras culturas.

A seguir, colo o meu comentário, pois, no meio de tanta purpurina, há realidades que há que reconhecer, que não têm que ser melhores ou piores que a ficção, mas que são diferentes e nem por isso hão de ter menos valor. À ficção que se assuma como tal, e à realidade que siga para o seu destino.

Alexandra, gosto muito da sua escrita, mas tenho que discordar de algumas coisas, normal, o amor não tem que (nem deve) ser uma concordância absoluta.
O seu olhar é o do europeu e juro que o paradoxo carioca é indecifrável para alguém que cresceu sob o manto da CEE/UE ou seja lá como venha a chamar-se.
A classe média de que fala, que vai às churrascarias caríssimas é, na verdade, classe alta e é com quem os europeus gostam de se relacionar, pois a classe média, de onde provêm, em geral, os professores, segue sendo cada vez mais achatada e ignorada nos planos de governo do PT ou nas políticas populistas do mesmo governo. A classe média não é cool, nem faz poesia, nem dança funk, por isso, não tem interesse para os olhos europeus que buscam, como os viajantes do século XIX o exotismo e o mito do bon sauvage.
A classe média, como os garis e tantas outras profissões do dia-a-dia, é transparente e invisível aos olhos dos europeus e também aos olhos dos conterrâneos brasileiros.
Solidarizo-me com os lixeiros e garis, sobretudo quando vejo como trabalham os lixeiros e barrendeiros aqui de Madrid. É preciso ter nascido e crescido no Rio e tê-lo deixado pra trás várias vezes em direção ao Norte, para solidarizar-se com tudo que constitui essa cidade.
E Luis Eme, o Rio merece não uma, mas muitas visitas. Seguro que o teu Casario do Ginjal está repleto de temáticas que ias ver refletidas por lá.
E sei, Alexnadra, que vai morrer de saudade das Laranjeiras/Cosme Velho, da feirinha de sábado e dos bolinhos de bacalhau que o garçon traz lá do bar mais acima pra comermos no meio da praça entre goles de chopp com amigos e muita filosofia.
Desejo-lhe sucesso, sempre!

domingo, 28 de julho de 2013

O Papa (Francisco) é pop






Eu peço a vocês que sejam revolucionários, que vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem; que se rebelem contra essa cultura do provisório que, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir responsabilidades, que não são capazes de amar a verdade. Eu tenho confiança em vocês, jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de “ir contra a corrente”. Tenham a coragem de ser felizes!"

Papa Francisco


Definitivamente, há uma nova era no ar. Um homem da idade dele que fez uma maratona desde terça-feira, chega ao fim do dia de hoje com esse sorrisinho de garoto no rosto e ainda faz o discurso acima - que foi, juntamente com a foto, retirado daqui - só pode ser especial. Desde quando,  um legítimo representante da tradição judaico-cristã de culpa e sofrimento incita as multidões a serem revolucionárias e felizes?

Mas também, com o nome que escolheu, tinha que ser. Os "Joões" e os "Bentos" que me desculpem, mas depois daquele outro, descalço, de Assis, ficou difícil ser especial.

E só tendo nascido no Sul - com toda a carga socio-economica que existe na oposição Norte-Sul - para saber, com tanta naturalidade, carregar esse nome.

domingo, 20 de novembro de 2011

Conferências do Estoril 2011 - Mia Couto



Já agora, ouçam também o que nos diz o Mia, em seu irônico e sério discurso sobre as maiorias, as minorias e o medo... e sobre a violência também contra as mulheres.

O link eu descobri no blog da Inominável, mas está disponível no youtube.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Da realização dos desejos

Bem, eu bem queria voltar a ser aquela pesquisadora incansável, professora mais que dedicada, coordenadora atenta... bem, talvez só por uma semana, para me dedicar a todos os projetos que idealizei nas férias.

Bem, as férias, bem, as férias... estranho ser justamente nas férias em que me vem essa necessidade de ser a trabalhadora de antão... ou seria antanho... ou então, não seria... seja lá como for.

O fato é que Pemba é uma experiência existencial, assim como os Makua, os Makonde, o Georges e a Emmanuelle (abaixo, os dois dentro do Land Cruiser quarentão, principal meio de transporte),


a Susana, o El Pirata, o Saïd e todos os outros com nomes muçulmanos que nem com muito esforço eu consegui memorizar.

Mas ainda foram férias, com F maiúsculo. E, Mila e Olga, please, não soltem demais a imaginação nesse F... é F de férias, de fantástico, de fora de série, de fenomenal, de fiche oh pá, de feliz.

Os caranguejos também, é verdade. Aliás, inventamos a dança do siri moçambicano... eles devem ter respirado aliviados quando partimos, mas as tardes na beira mar nunca mais serão as mesmas, eles bem vão sentir saudade da nossa amistosa perseguição cheia de energia solar.

Aliás, Sonia vai adorar, a Flavinha vira e pergunta: Mas vocês ficavam o dia todo na praia, não faziam mais nada? Ao que eu respondo: é, na praia, até a hora do almoço, depois descansávamos na varanda,


junto com as formigas de um dos troncos que sustentava a casa, quando elas começavam a andar por cima de nós, voltávamos para a beira do mar, andar e ver se a maré estava vazando ou subindo, verifávamos se o mangal estava submerso ou à mostra, corríamos atrás dos caranguejos, sim, isso, uma das nossas atividades preferidas e, não, não havia lojas onde comprar nada, nem supermercado tem na cidade, só um mercado muito rústico, na porta das casas dos vendedores, além da cooperativa dos escultores de madeira.

A cara dela não dá para descrever, era como se eu estivesse falando do meu último passeio pelas crateras da lua, no rastro do Neil Armstrong.

Depois tinha o pôr de sol muito cedo, às 5h...

e, a seguir, a lua que ficou cheia cheia durante a semana e cor de laranja ao surgir no sábado. Jantar na ventania, que não parava de ventar, depois de 3 dias a gente já nem nota. E ir pra cama as 9h.

Sol na cara as 5h30, através do teto de macuti e da rede que cobria a cama na necessária e, às vezes, inglória, tarefa de afastar os insetos.

Abaixo, um dos caranguejos capturados num sequestro relâmpago e logo liberado por falta de caixas eletrônicos de onde obrigá-lo a sacar dinheiro. De toda forma, não acredito que fizéssemos muito com umas centenas de meticais, isso, se encontrássemos onde gastá-los.


A seguir, o Sebastian. Lembram do filme "A pequena sereia"? Pois é óbvio que eu não consegui pensar em outro nome para batizá-lo. Havia uma legião deles.



A lua e a dança do siri moçambicano vem na próxima. Já não consigo manter os olhos abertos.

domingo, 31 de julho de 2011

Desejos dos outros, alvoradas minhas


Hoje acordei ainda noite, fui levar os últimos visitantes a Barajas. Ao voltar, as luzes começavam a surgir. Ao chegar, a casa estranhamente silenciosa, sem previsão de novos ou conhecidos ruídos. Só promessa de silêncio e calor, na frescura da alvorada. Mais tarde o toque de despertar do quartel vizinho, familiar. O sono vindo. E os desejos, constantes. Busquei e só encontrei esse texto que não confio ser mesmo do Drumond, mas cujo conteúdo pode traduzir um pouco do que me apetece aqui deixar. Até a volta. A imagem é da minha janela.

DESEJOS

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel...

... e olhos para poder registrar imagens como essa.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Choque do bom

Eu juro que não vou fazer comparações, pensem o que quiserem, mas eu fiquei chocada hoje cedo.

Toda preparada para ir ao ginásio - sim, na urbanisación tem ginásio, é tudo, né? - ponho meu telemóvel como walkman, fiozinho no ouvido e apanho o elevador. Surpresa, pára no 3, coisa rara. Entra um casal e um menino gordinho, de uns 9 anos, ainda sonado, as 8h30 da manhã.

O pai, ao ver o elevador com alguma ocupação - eu - exclama com um sorriso: "Hola! Buenas!" e apressa o resto da família para entrarem. Cumprimento a esposa e o menino que, pasmem, também cumprimenta, tadinho, meia pestana aberta.

A esposa não se contém, diz: "Eres del quinto, correcto?" Confirmo e ela continua, quase em coro com o marido: "Somos del tercero E, dos pisos abajo del tuyo. Bienvenida!"...

Bem, felizmente eu estava sozinha, o Victor era capaz de ter um ataque do coração, eu quase fiquei apoplética, nem sabia o que responder ante tanta amabilidade gratuita. Consegui, a custo, esboçar um: "Muchas gracias, muy amable" e saí na planta baja, ainda atônita e feliz.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pérolas... ou diria perlas? I

Hoje eu não estou feliz, há muita coisa triste acontecendo, em variadas latitudes e ando destilando fúteis preocupações para não pensar muito no futuro. Assim, aturem estas pérolas fresquinhas, recém tiradas da concha (?) espanhola...

Espanhóis fazem imenso barulho, por tudo e por nada, a maior parte das vezes, por nada.

A)É assim, ouve-se um falatório na calçada, vai-se à janela, há um espanhol jovem, empurrando um carrinho de compras, gesticulando e falando, aparentemente dirigindo-se a alguém que está à frente dele e não podemos ver. Atrás dele, surgem uma mulher jovem e uma criança, também falando, desta vez para o homem jovem. Finalmente, abre-se a "câmara", vem um cãozinho vira-latas subindo a rua na diagonal e arrastando uma trela vermelha. Adivinhem com quem o homem falava em alto e bom som com coro da mulher e do filho... esta última, vem logo atrás e apanha a trela do animal sorrindo. O que ele dizia? Não faço idéia, mas gesticulava e articulava com muito entusiasmo.

B) No mercado, uma família cheia de dúvidas sobre onde encontrar algo... como eles falam muito e sempre alto, claro que eu prestei atenção, além de mim, também, um homem alto e forte que se dirige à senhora, mesmo sem ter sido interpelado, e indica com precisão onde ela pode encontrar o tal produto. Caramba, eu quase caí pro lado, era empregado do mercado. Em Portugal, nem quando a gente pergunta eles explicam... em geral não sabem.

C) Dois funcionários do mercado (ok, podem dizer, a minha actividade de socialização favorita são os mercados!.. nem sempre foi assim, acreditem!), o homem, que parece ser o supervisor, aos berros explicando enfaticamente a uma mulher o que deveria fazer. Acho que ele estava sendo enfático demais, ela responde algo como "de la mierda" também aos berros e sai resmungando ao ser indagada se tinha entendido.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Entre dois choques


Estou como ela, a meio caminho de entrar em choque novamente e já com tanta saudade deste último ano e meio de choque cultural. Ela tem sorte, não tem que falar outra língua, mesmo variando a paisagem e a dieta permanece a mesma.

Dizia, porém, uma conhecidíssima gaivota em livro:

O livro de nossa vida influi no destino da comunidade inteira.


Aí sim, o choque cultural terá valido a pena, cada segundo dele. Vamos para o próximo.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Rui Veloso - Loucos de Lisboa



Porque eu me sinto mais um pouco daqui do que jamais me senti deste país. Porque todos nós um dia fomos ou seremos algo de louco e desvairado, algo de solitário e sem pontas por onde se pegar. Porque somos todos suscetíveis a entristecer, a envelhecer e a enlouquecer. E porque não precisamos nem devemos perder a ternura por quem já o fez e o fará um dia destes. Talvez o maior choque cultural seja o outro ser humano, desde sempre.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Durban, África



Escrevo à beira Índico, não seria à "beira mágoa," pois de Pessoa tenho talvez, apenas, a nacionalidade herdada de meus pais. Mas, recordo agora, talvez, neste instante, tenhamos algo mais em comum, já que estou em Durban, mesmo porto de onde ele saiu, devastado, em direção à Lisbon revisited da sua infância. Mesmo porto onde iniciou, talvez, a serie de poemas ingleses, não sei.

O que sei é que África é muito mais que uma palavra de 6 letras, muito mais que um aglomerado de países em quase constante ebulição, mais que muitas, incontáveis tribos e idiomas. África é mais que um continente, África é um mundo especial. Espacial, também, com todos os múltiplos sentidos que o adjetivo possa ter.

Os espaços, aqui, têm uma dimensão incompreensível para europeus ou brasileiros como eu. Vive-se em casas, gradeadas e seguras, admito, mas em casas mais que enormes para os padrões urbanos brasileiros da costa do Atlântico e muito mais que enormes para os padrões ibéricos e mesquinhos das terras de Camões.

Ai, Camões, ele que descreveu o "monstrengo" que do mar surgia ao dobrar o cabo das Tormentas, ele que chegou até a Ásia, ao navegar este mesmo Índico, ele não podia mais caber naquele reduzido espaço envolto por tão reduzidas mentalidades. Agora, entendo o que se possa ter passado com esses dois nascidos naquele cotovelo da Europa.

É que aqui se respiram horizontes e maresia, aqui podemos nos deixar deitar ao chão pelo vento que sopra incessantemente e enche a pele, os cabelos e os óculos de uma pegajosa maresia que se cola até a alma. O vento morno na pele, o vento sussurrante nos ouvidos, a vida mansamente embalada pelo vento morno dos trópicos, sem arrepios, exceto de prazer, sem encolher a alma dentro de lã e couro, expandindo os dedos na calçada sem sapatos, na grama mais que verde, na areia grossa a pinicar a pele.


Sim, estou à beira Índico, diante do mar de Durban, em Umhlanga, que se pronuncia "Mchlanga" em Zulu. Estou no Kuazulu-Natal, terra do presidente Zuma, atual governante do país. E o nome Natal é uma reminiscência de outro lusitano, Vasco da Gama, que aqui atracou, ou melhor, mais ao sul, na baía de Durban, no dia da efeméride cristã e assim batizou o local.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

JHB, África
















Ontem, jantei numa casa absolutamente africana, em Jo'burg, como chamam, os íntimos, a cidade de Johannesburg. E por ser um jantar totalmente africano, sentei-me ao lado de um casal de meia-idade da mesma tribo do Mandela, os sothos. Tinha à minha frente uma mulata do Cabo, pele quase amarelada, vestindo uma daquelas túnicas africanas, à guisa de vestido, com um enorme círculo de âmbar pedente de um fio grosso em volta do pescoço.

À esquerda dos conterrâneos do Mandela, sentava-se um casal oriundo do Orange Free State, terra de africaans da gema, corpo de estivador, cara de irlandês com maus hábitos alcóolicos de pub, cujo filho joga rugby nos Cheeta, time equivalente ao Flamengo, no Rio ou ao Benfica, em Lisboa. Meu africano favorito, responsável pelos meus vôos nestas terras, dizia ao meu lado que era fácil imaginar o filho, bastava olhar para o pai e vesti-lo com a roupinha da equipe esportiva.

Bem, o jantar começou pontualmente as 19h e as 20h45 já estávamos nos despedindo, depois de ouvir muitas historias da copa contadas enfaticamente pela senhora de meia idade e reforçadas e comentadas pela mulata do Cabo, com alguns apartes em um inglês quase macarrónico do nosso amigo estivador, que fazem qualquer brasileiro que apenas "arranha" no inglês se sentir fluent speaker do idioma anglo-saxão.



Fico por aqui, pois a alergia ao polém transformada em febre do feno, me faz precisar de água e inalações constantes. Mas o melhor talvez seja o meu relato sobre Maputo, pérola da África, que visitei de fugida por um precioso dia e meio.

terça-feira, 6 de abril de 2010

No cabo do mundo, sem tormentas

Pois, já que ando em uma onda de retrato do real com todas as cores, resolvi postar o mail tal como saiu para os amigos. E houve até quem ligasse para dizer que... bem... não vou entrar numa de fishing for compliments... e podem me malahr se quiserem, que este tempo chocho de primavera enevoada já está me dando nos nervos... Ainda que eu não quisesse a lama toda que anda lá por onde não há choque cultural, só social, econômico, profissional.... and so on..



Estou no cabo do mundo dos navegadores do seculo 15, sem computador, escrevendo no telefone que, para o bem e para o mal, ainda m serve de ligacao com o resto da humanidade.
No domingo, visitamos mesmo os dois pontos descobertos pelos portugueses, onde
Bartolomeu Dias deixou um padrao, hj se chama Cape Point; e onde o Vasco da Gama deixou outro padrao, Cape of Good Hope.
Tudo faz parte de um enorme parque à beira mar, com vegetação peculiar e baboons. Estes ultimos sao uns macacos peludos, com enormes caninos, como tigres e q podem ser muito agressivos s alguém se mete no caminho deles.





Também da para entender pq isto foi chamado Cabo das Tormentas, tem um vento constante q pode ficar muito forte mesmo e entorta li-te-ral-men-te as arvores no porto da cidade. O mar tem um azul deslumbrante, como eu só vi no Caribe e se eu fosse rica, era para cá que eu vinha quando me aposentasse. :)


As pessoas sao super simpaticas e acolhedoras, sorriem na rua e cumprimentam todo mundo.
Ha uma mistura curiosa de simpatia e descontração carioca com um certo requinte britanico temperado com uma razoavel flexibilidade holandesa. Tudo junto dá um ambiente divertido, onde as criancas andam descalcas na rua - não, não sao pivetes pedindo uma coisinha "tia" -, as pessoas se vestem do mais casual ao razoavelmente chique (sem ser over) para ir ao teatro - eu fui de calça de crepe preta e havaianas douradas e me senti muito bem -, o sol brilha mas o vento te faz por casaquinho e echarpe no pescoco, mas com os dedos de fora e a passos lentos que aqui ninguem anda correndo com copo de isopor na mao, Nova Iorque está bem longe, graças a Deus.

Estou hospedada em uma Guest House que descobri na internet e que eh ainda mais linda e agradavel pessoalmente. Para os inocentes, GH eh o que os ingleses chamam d B&B (Bed and Breakfast), so que muito mais simpatico.

Maria e Johanes sao os donos da casa que reformaram e transformaram em negocio, mas não perderam a noção dos seus objetivos iniciais. Entao, a gente tem um quarto, lindo, todo creme e branco, c tv, secador, frigobar, ventilador e aquecimento, lençois de algodao, varias almofadas, cadeira de vime, varanda c mesinha de ferro e vista para uma nesga d mar, tapetes, muitos espelhos; no banheiro, pote de vidro com algodao e lixa de unhas, enormes frascos de champu e gel de banho, toalhas brancas e fofas trocadas diariamente por duas funcionarias mulatas com uma cor muito tipica e um sotaque idem. Alem disso, na mesa da tv, uma bandejinha com chaleira eletrica, cha, cafe soluvel, açucar, adocante e leite em po, e um pratinho em forma de bule para por o saquinho usado do cha.

Ao chegar, a Maria me perguntou o que eu queria cooked p o cafe da manha, alem do bufe de frutas, cereais, paes, queijos, geleias e iogurtes. A sala eh uma delicia, da para uma piscininha-tanque cheia de charme e de flores em volta, tudo parece a casa daquela amiga mais velha que tem muito jeito para decoração e usa o dinheiro da aposentadoria para ter uma casa deliciosa que todos querem copiar.

Nada cheira a hotel, tem boa energia e vasos coloridos de ceramica, alem de protetor solar, bonés e toalhas a disposição para os hospedes. E o preço eh de pensaozinha comparado c os hoteis da mesma regiao da cidade. So mesmo na Africa do Sul.
As gaivotas fazem uma sinfonia constante e o por de sol eh cheio de rosa e vermelho.



Ainda ha mt mais q contar, do restaurante etiope onde não ha talheres à desconhecida que me convidou para tomar café no shopping, sem falar no restaurante que é quase um parque, como uma aldeia africana, se chama Moyos e tem carne de veado, antilope e rabada, mas fica para a proxima, eu prometo que conto.


Fafa, por favor, reenvia para Raquel e tia Alba q eu não tenho aqui o email delas, mostra p seus pais e avos. Kerol, mostra p Solange e cia e da beijo neles, e reenvia p Carla e Linda e diz a Carla q nosso dia ta chegando. Marilinha, da beijo enorme nas outras duas pessoas queridas dessa casa. Lucia, s puder reenvia p Leila que eu não tenho email dela aqui.


A todos que puderem ler, meu carinho redobrado na distancia e a certeza de que a vida pode ser muito interessante quase sempre, ha que ter olhos e ouvidos disponiveis.

Beijos sulafricanos, com muito chili e açucar,
L
Enviada do dispositivo sem fios BlackBerry®

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sergio Godinho- Com um Brilhozinho Nos Olhos

Ai vai o vídeo. É uma delícia essa música e o jeito como ele a interpreta. Prestem atenção na letra deliciosa. By the way, eu ainda não perdi o brilhosinho nos olhos! Mantenham o de vocês!



Sérgio Godinho : Com um brilhozinho nos olhos

Letra e música: Sérgio Godinho
In: 1981,"Canto da Boca"
Victor Almeida
Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.

Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som

E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco. [x4]
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto [x4]
portanto,
Hoje soube-me a pouco

Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei

Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola [o que nos passou pelo goto]
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola [és o seis do meu totoloto]
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"

E que é que foi que ele disse?
...

E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.

E que é que foi que ele disse?
...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

First glance

Dei uma circulada nos sites sobre choque cultural. Melhor esquecer. Os textos - quando os há - falam sobre as obviedades do costume: carnaval do Rio vs. Ramadam; a rigidez dos anglo-saxões vs. as relações distendidas dos latinos; a preocupação com prazos, datas e horários vs. o enfoque de tempo mais alargado e flexível. Ou ainda, como ser louro, sardento e ter mais de 1m80 e passar despercebido em Machu Pichu.

Não, meus amigos, eu vou falar de choque cultural na passagem entre culturas ditas irmãs, ou mãe e filha ou seja lá como quiserem se referir às relações luso-brasileiras. Eu não tenho problemas com documentos, os meus são os de qualquer europeu ou europeia (com a diferença que eu ainda ponho acento no "e" do patronímico), não preciso de visto, não vim trabalhar como manicure ou trolha, não preciso servir as mesas, e ainda menos me atrai a mais velha profissão do mundo. Professo, em tese, ao menos, a mesma religião nacional e até aí há estranhamento. Tenho cor da pele, espessura do cabelo compatíveis com a média nacional, ainda que não seja tão pequena quanto um terço das mulheres que observo diariamente nas ruas e shoppings da cidade. E venho de um país onde a rigidez não é o forte do comportamento, mas a flexibilidade é de muitas outras naturezas.

Enfim, sou uma brasileira em Lisboa e lembro, com frequência, da musiquinha que o Sting tão bem interpreta: Oh, oh, I´m an alien, I´m a legal alien, I´m an English man in New York...
E este blog vai ser dedicado a todos os meus findings, todas as minhas surpresas, sem angústias, pelos menos, as profundas, apenas alguma irritação, um tanto de insatisfação e bloqueio ,e uma busca de integração sem demasiadas concessões. Eu insisto em dizer "alô!" cada vez que atendo o.... celular.


E a minha atitude é muitas vezes a do felino abaixo e, suponho, com semelhante sentimento em relação ao mundo circundante.